Se você já se pegou acordada no meio da noite revivendo mentalmente cada pequeno erro do dia — a vez em que perdeu a paciência por causa de um brinquedo espalhado, o minuto a mais na tela do celular ou a refeição que não foi tão nutritiva quanto gostaria —, saiba que você não está sozinha.
A maternidade contemporânea veio acompanhada de uma exigência desumana: a busca incessante pela perfeição. As redes sociais transbordam de rotinas impecáveis, corpos que recuperam a forma em tempo recorde, métodos pedagógicos infalíveis e lares que parecem capas de revista. Nesse cenário, a culpa materna tornou-se uma companheira diária de milhões de mulheres.
Mas e se eu te disser que a busca por ser uma mãe perfeita não apenas te adoece, como também atrapalha o desenvolvimento do seu filho?
Essa não é uma opinião tirada da nossa exaustão moderna, mas sim uma descoberta revolucionária feita há décadas pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott.
Quem foi Donald Winnicott e o que é a “Mãe Suficientemente Boa”?
Winnicott revolucionou a forma como entendemos a infância e a psicologia materno-infantil ao cunhar um termo incrivelmente libertador: a Mãe Suficientemente Boa (good-enough mother).
Para ele, a criança não precisa de uma mãe perfeita, infalível e onipresente. Pelo contrário. No início da vida, o bebê precisa de um cuidado quase total, de um acolhimento que atenda às suas necessidades básicas de forma muito próxima (fase que ele chamou de preocupação materna primária). Porém, à medida que a criança cresce, esse cenário precisa mudar.
O perigo de ser uma mãe perfeita
Se uma mãe se esforça para antecipar todos os desejos da criança, nunca falha, nunca se cansa e resolve tudo antes mesmo que o filho sinta o esforço, ela cria uma bolha artificial.
Para Winnicott, a mãe perfeita impede que a criança entre em contato com as frustrações naturais da vida. E por que a frustração é importante? Porque é justamente através de pequenas falhas cotidianas — a mãe que demora um minutinho a mais para atender ao chamado, o limite que é imposto, o erro de tom que é seguido por um pedido de desculpas — que a criança percebe que o mundo não gira ao redor dela.
São essas micro-frustrações, vividas em um ambiente seguro e amoroso, que ensinam a resiliência, constroem a autonomia e preparam o indivíduo para lidar com o mundo real lá fora.
O alívio de ser humana
Ser uma mãe suficientemente boa significa exatamente o que o nome diz: você é o suficiente.
Significa entender que:
- Errar o tom e pedir desculpas ao filho ensina responsabilidade afetiva na prática.
- Cansar, precisar de silêncio e estabelecer limites mostra que a mãe é um indivíduo com necessidades, e não um robô.
- Cuidar do próprio bem-estar e da própria sanidade não é egoísmo, é a base para um ambiente saudável.
As crianças não se lembram — nem precisam — de mães que nunca erraram. Elas se lembram de mães que estavam presentes, que respiravam fundo após um dia difícil, que acolhiam seus próprios tropeços e que amavam com verdade, de carne e osso.


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